Ainda me lembro como se fosse hoje. Chamou-me à parte. Não era muito habitual nela chamar-me à parte. Ou talvez sim. Para me perguntar onde tinha posto a mochila, para me desafiar na última versão “sega Rally” ou para lembrar que o pastor alemão estava a precisar de apanhar ar e que além disso, lhe deveria dar menos confiança. Mas, pelo ar dela desconfiei que viesse uma novidade daquelas em que, nem os pais nem ninguém podem ajudar e, só mesmo o conselho que um irmão pode e sabe dar. Nuno – introduziu ela com demasiada solenidade para o meu gosto – o dinheiro não me diz nada. Quero ser freira.
Quero ser freira, repeti eu de barriga para o ar, naquela noite antes de adormecer. Freira? Eu peço imensa desculpa, mas eu não posso dizer às pessoas que a minha I-R-M-Ã vai para F-R-E-I-R-A. Andamos doidos?
O sentimento era inegavelmente de sincera vergonha. Vergonha, porque hoje em dia já ninguém vai para freira. Para missionaria sim. Agora para freira? Para freira? Que fosse para África, para Marrocos ou para o Moçambique. Agora, para um convento?
Ok. Sem grandes explicações despedi-me dela. Despedi-me com vergonha e com a marca da infelicidade.
Foi então que sentado no sofá, sozinho, pus a cassete de vídeo. Uma reportagem que ela tinha feito aquando das Jornadas Mundiais da Juventude em Paris. Quis compreender a decisão da minha irmã. Lá estavam as imagens ou as provas, pensara eu. Paris. João Paulo II. Champs Elysees. Hipódromo. Perdi-te durante duas horas. Lá apareceste. Doutora da Igreja. Teresa de Lisieux. Não tenhais medo. Autocarros. Por aí fora. Por ai adiante.
Estaria ali a resposta: ou na cassete ou no livro autobiográfico da nova doutora da Igreja “história de uma alma”. E li. Li, gostei, mas não percebi nada. Ou se percebi não era o suficiente para dar um conselho que nem os pais nem ninguém podem dar a não ser um irmão. Na verdade, entrou na mesma sem que fosse necessário pedi-lo.
Já lá vão uns bons anos, uns bons anos...que guardo esta imagem na memória. E mais ainda, quando no fim-de-semana passado na Normandia por ocasião de um retiro de jesuítas que estudam teologia, tive a oportunidade de no regresso a Paris visitar Lisieux. A Basílica e o Convento das carmelitas. Sentei-me ali, na zona mais escura, para rezar. Para rezar, para recordar a história de santa Teresa de Lisieux. Para recordar a história da Joana, a minha irmã. Para envaidecer-me da irmã que tenho. E para, finalmente, entregar a Deus o futuro que se aproxima.
Ao sair da cripta da Basílica, detive-me diante um placard vertical branco. Tinha pinta de exposição temporária. Uma fotografia e uma frase autobiográfica.
“Compreendo agora que a caridade perfeita consiste em suportar os defeitos dos outros, em não se escandalizar com as suas fraquezas e em edificar-se com os mais pequenos atos de virtude que se lhes vir praticar".
E pensava eu.
E pensava eu que já tudo tinha compreendido.
Quis compreender a decisão da minha irmã
Onde estará a verdade?

Onde estará a diferença entre a viva vivida, ou seja aquela que é experimentada no exacto momento em que a vivo, e aquela que é recordada e descrita posteriormente, isto é, a vida contada? Explico-me. Pode acontecer com alguma, ou bastante, frequência que quando nos pedem para contar as novidades nos apercebamos, no ato de contar, que há uma diferença entre aquilo que foi vivido e o respectivo impacto que isso produziu, com aquilo que agora narramos e contamos. Por exemplo, é muito provável que já tenha acontecido que de uma situação destruidora e amarga (experiência vivida) conseguíssemos numa ocasião posterior reconhecer-lhe como sendo, afinal, lugar de graça (experiência contada). É provável, muito provável, que isto já nos tivesse acontecido. Se não isto, o contrário: aquilo que naquele instante parecia ser um bem, afinal veio a ser interpretado com um mal.
A observação deste desajuste pode levar-nos a uma primeira questão: uma vez que poderá não existir coincidência entre “o que vivi” (a experiência) e a “narração do que vivi” (a interpretação), onde estará então a verdade? Ou se preferirem: a qual dos dois devo dar maior confiança?
Inegavelmente que a “vida vivida” transporta consigo matéria de verdade, uma vez que ela nos revela e nos mostra, através de situações e de ocasiões concretas, aquilo que há de mais profundo em nós e nos outros. No entanto, esta “revelação” não estará totalmente terminada enquanto não for acolhida, mastigada, saboreada e interpretada. Este gesto de interpretar, que normalmente acontece no acto de narrar, possibilita que eu atribua sentido à totalidade de uma história vivida até então.
Mesmo à noite, quando recordamos por um instante aquilo que se passou durante o dia reconhecemos com algum espanto o sentido de uma dificuldade que pareceu ser sem sentido. Somos, portanto, visitados e agraciados pela graça que cria e dá forma àquilo que antes se apresentava como informe. Portanto, penso que escutar o impacto de cada momento vivido será, obviamente, importante mas mais do que isso será necessário saber observar, interpretar e narrar esse momento. E isso só será possível com o hábito diário do silêncio. E com o hábito de uma boa conversa.
Como dizia muito sabiamente o cardeal John Henry Newman, “a presença de Deus, não será discernida no preciso momento em que ela se manifeste sobre nós; mas mais tarde, quando dirigirmos o nosso olhar para trás”.
Ainda há esperança?

Personalidades tão diversas como o eurodeputado Paulo Rangel, os cantores Tiago Bettencourt e Carminho, o porta-voz do Papa ou o escritor Jacinto Lucas Pires juntam-se numa iniciativa online para apresentar o seu olhar sobre a esperança. A página web www.essejota.net, da Companhia de Jesus, propõe celebrar deste modo o seu quarto aniversário.
Um projecto que procura levar a um olhar mais profundo sobre o mundo e que desta vez se abre a personalidades muito diferentes que nos podem ajudar a ir mais longe...
Uma Edição que vai valer muito a pena. Amanhã mas bancas!
Tolentino e outros artistas

Exposta ao mundo, a Igreja deve acolher com humildade a crítica. Essa abertura deve ser um fruto visível da liberdade interior de quem, não querendo impor-se à força, não deixa de propor com transparência e convicção as razões mais profundas da sua Fé. Por fidelidade à sua Missão a Igreja deve permanecer num exame de consciência constante, saudável e sério. Tal exame não pode ser um exercício rigorista que esquece uma das atitudes fundamentais do ser criatura: o reconhecimento e a gratidão.
No actual momento da Igreja em Portugal, há um sinal de esperança que pode ser reconhecido, agradecido e saboreado: a busca de um encontro entre a Espiritualidade e a Arte; a procura de um diálogo entre Fé e a Cultura. Talvez os sinais sejam ténues, mas eles estão aí: o site da pastoral da cultura, a capela Árvore da Vida, vários encontros promovidos por movimentos da igreja em que se encontram crente e não crentes, ...
Esta é seguramente uma tarefa de vários artífices, que de modo dedicado e discreto estão a dar um contributo significativo para que crentes e não crentes possam contemplar as suas paisagens interiores. Mas, pela sua visibilidade e importância é justo destacar o papel do Pe. José Tolentino Mendonça.
O que mais me chama a atenção, nos seus textos e nas suas iniciativas, é busca incansável que faz do sentido último das coisas: das palavras e dos gestos, dos risos e das lágrimas, da sede e dos sentimentos. E em tudo isto Tolentino promove, não um diálogo entre mentes brilhantes, mas o encontro de corações sinceros. E é esta a sua grande arte. O poeta dirige-se ao lugar onde se dá hoje a secularização: o coração humano. Um coração entendido, não como uma realidade mole de sentimentos que se evaporam, mas como o campo onde a vida humana se torna consistente. Lugar de todas as decisões e de todo o sofrimento. Lugar das lutas e da paz, das buscas e do descanso, da sede, das perguntas e dos afectos. Lugar do Amor. Lugar do Encontro.
Só por distracção se pode considerar este como um caminho fácil. Colocar corações sinceros em diálogo é, provavelmente, uma das mais árduas tarefas a que nos podemos dedicar. Ela obriga-nos a preâmbulos que podem durar toda uma vida: desistimento de nós mesmos e das nossas verdades parciais, aceitar a dificuldade e instabilidade da vida, correr o risco da maturidade humana.
A obra escrita e apostólica do Padre Tolentino é um grito de vida que passa pelo deserto. Mas há outros sinais e outros artistas (mais ou menos conhecidos) que percorrerem os trilhos do coração humano e se dirigem assim à bomba de oxigénio de toda a cultura.
Que a Quaresma que agora iniciamos, faça de nós correntes de ar do sopro criador de Deus. Que as nossas palavras, gestos e celebrações se deixem fazer por este sopro e possam rasgar os corações adormecidos. Que a nossa vida, e o modo como a contamos, seja “um lugar de beleza” (Bento XVI) transparente à Vida. É esta a autenticidade porque esperam ansiosamente os nossos contemporâneos e a nossa cultura.
O blog “Aventar” organiza neste momento uma iniciativa que quanto a mim se apresenta de grande utilidade uma vez que tem por objectivo promover e divulgar o que de mais interessante se faz na blogosfera portuguesa e de língua portuguesa. Se este é o conteúdo, a forma escolhida é a elaboração de um concurso percorrendo diferentes categorias temáticas, entre as quais a área da "Religião e Espiritualidade".
Assim sendo, julgo que terá aqui uma oportunidade para refrescar ou atualizar a sua “biblioteca pessoal de blogs”. Deixo aqui à disposição a lista dos vários blogs e respectivas categorias.
Bom proveito!
Abraçar a Solidão
Abraçar a solidão. Saber, não sem dor, que uma parte do que somos não se completa em nenhuma entrega, não se encontra em nenhum abraço, não se diz em nenhuma palavra. O ciúme e a possessão têm a sua raiz no nosso engano de recusar a solidão. Mas nada do que seja efémero, por arrebatador, violento ou prazenteiro que seja, esconderá esta ferida. Enfrentar sem disfarces esta verdade previne toda a idolatria, coloca-nos desnudados e frios diante do mundo. Nós não somos do mundo porque o mundo não nos pode agarrar, porque, por muito que agarremos o mundo e as suas folhas mortas, a nossa sede não se apaga.
Enquanto iludidos nos divertimos a tentar matar esta sede, enquanto iludidos matamos a distância em que esta sede habita, matamos o lugar em que podemos experimentar a intimidade e o amor. Resistir a esta morte é a nossa história. Vencer esta morte é o nosso futuro!
Fui apanhado

Dizia-me em conversa. Não quero que me vejam a rezar. Ou melhor, prefiro que não saibam quando estou a rezar. Tu bem sabes – esclareceu sem necessidade alguma – que não é por pudor ou por vergonha, mas por não querer encontrar consolação na boa imagem que possa causar. É um exercício para a gratuidade e para limar a motivação pela qual estou com o Senhor.
(Fiquei a pensar na confidência deste jesuíta: não quer ser visto)
Alguns meses mais tarde, bastantes por sinal, contou-me com um humor desconcertante o encontro que tivera. O relógio de parede da cozinha marcava sete horas da manhã. Ainda era de noite, quando dois jesuítas se cruzaram inesperadamente ao pequeno-almoço. Prontamente, o outro perguntara-lhe: por aqui a esta hora, tão cedo? Vais viajar? Viajar?! – Surpreendeu-se o jesuíta que não queria que soubesse quando estivesse a rezar. Viajar?! Não, não vou viajar – finalizou prontamente com um tom seco. Ah! É primeira vez que te vejo tão cedo, raramente te vemos ao pequeno-almoço e quando te pomos a vista em cima, já a manhã vai a meio. Aquele dorme bem, é o que pensamos - dizia, acompanhado de um sorriso quase irónico.
Depois de ouvir esta descrição que ele me acabara de contar, não hesitei em ser requintado na observação e perguntei-lhe: o facto de aquilo que és não corresponder à imagem que as pessoas têm de ti, fez-te mossa? Mas, olha, acho que é óptimo sinal. Não tinhas dito tu que não querias encontrar consolação na boa imagem que possas causar nem que não soubessem quando rezas? Continua, porque está a resultar.
Viagens a um lugar interior…
Há uma sede que nos habita a todos, um desejo profundo que nos une: queremos ser quem somos em verdade e simplicidade, sem máscaras ou artifícios.
Nesse lugar podemos brincar sem medo com os nossos sonhos, reconhecer com humildade as nossas fragilidades, tocar nas nossas feridas. E há, em tudo isto, uma alegria que não podemos explicar. A alegria de aceitar que o que há de vazio em nós pode ser habitado e pode, ainda que tremulamente e de modo incompleto, ser comunicado aos outros. A solidão, que nunca deixará de nos atravessar, não é o nosso futuro.
Se chamamos mágicos a estes momentos corremos um sério risco… deixar que a rotina, no que tem de necessária e inevitável, nos adormeça o espanto e nos faça esquecer a beleza de ser humano. Vale a pena dar vida toda por esta beleza, sem iludir as rugas ou apagar as lágrimas. Vale a pena o mergulho de ser homem ou ser mulher.
É bem verdade que, às vezes, nos assustam os versos ou as melodias em que sofremos este mistério, em que cruamente o experimentamos no sublime e no efémero. Mas o medo bem que pode ir dar uma volta. Não estamos sozinhos, a sede que nos habita vem de uma fonte que não se apaga.